A inspiração para este post, surgiu como lembrança carinhosa de uma pessoa muito especial, que me revelou - e eu confesso ter uma certa dificuldade para compreender o óbvio, quando se trata de musica - o fato de que esta música poderia na verdade tratar-se de uma oração.
E hoje vou dormir, e espero que todos tenham sentido isso, ou ao menos respeitem essa vontade; precisando de uma oração. Mas não seria nenhuma dessas orações tradicionais: a crítica sobre esse fato, eu deixo para Nietzsche. Preciso dessa ferramenta, porque vou dormir com um medo danado rondando a minha cama, mas não sei de onde vem.
Qualquer livro sobre introdução a psicopatologia, ou sobre a história da loucura, provavelmente começaria com uma advertência sobre a definição e a conceituação da loucura: o cara que hoje escuta vozes e seria - espero que não aconteça -trancafiado com uma camisa de força; em alguma cultura indígena, por exemplo, seria provavelmente colocado em uma posição de destaque na comunidade em questão, pelo seu importante contato com o mundo espiritual. Portanto, trata-se de um ponto com ligação direta com o contexto. O que é tido como loucura em uma cultura, não é na outra... e vice e versa. Então descarto a possibilidade de loucura.
Bom.. a questão é que um amigo a pouco tempo postou que os heróis de hoje, muitas vezes encontram-se sitiados. E eis a pergunta: O que será?.. que será?! que ainda não foi , mas pode vir a ser?! que andam suspirando pelas alcovas, que esta na gritaria dos infelizes? não acredito que seja uma revolução armada propriamente dita. Mas se hoje vivemos em uma crise e uma guerra simbólica; nosso saudoso Neruda pode ter a resposta: vamos usar cada poema como se fosse uma granada!
Santificada busca de nadar contra a corrente, disparar contra o sol.. mas de forma alguma... por acaso.
Onde todo mundo vive protegido nas trincheiras do imediatismo, quem ousa amar ou falar sobre o futuro pode ser acusado injustamente de loucura, ou corre o risco de ser exilado (e uso a palavra amor do ponto de vista da pulsão de vida, que me desculpem os epistemológicos de plantão). E não é pra menos, na sociedade que prega a rédea-solta, quem ama é foragido. O amor precisa do desejo pra se perpetuar. - Azar o dele, entrou pro time errado!! (grita a torcida). Humberto Gessinger dizia: " Diga a verdade põe o dedo na ferida, você se apaixonou pelos meus erros. Mas eu perdi as chaves, mas que cabeça a minha, agora vai ter que ser pra toda vida". Esse cara ainda vai ser linchado!! Onde já se viu prender alguém num mundo tão livre. E Camões dizendo que "o amor é ferida que dói e não se sente", quem quer sofrer num mundo tão feliz.. cheio de pessoas felizes, é só ver no orkut! ainda bem que esse tal de Camões já morreu! .. E o memorável Renato Russo cantando "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanha", a segunda parte se concretizou, agora a primeira ( pensando bem, essa frase fora de contexto, da um desamparo .. não dá??!! È esse o perigo!!!!) e ainda eis que surge o novo oráculo do marketing e diz: Pare! Pense! Reflita! Mude!.. BEBA PEPSI!!
Não que eu seja um herói; mas descobri que rolava na cama não de medo.. mas de vontade de vir e montar essa granada.
Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito, não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada, mesmo que distante
porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro, seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor e a outra metade também.
Metade
(Oswaldo montenegro)
Saravá!!!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
O reflexo de Narciso
.jpg)
Existem algumas frases e clichês que circundam o mito de nosso jovem narciso, como: "Narciso acha feio o que não for espelho", por exemplo. E uma frase como esta inevitavelmente remete a uma certa arrogância, do sujeito narcísico em questão. Passagem que com certeza encontra respaldo em manifestações de "mínimos eus" que podemos encontrar na vida cotidiana. Mas é em outro ponto que eu gostaria de chegar.
Foi uma reflexão que fora passada para o papel e que segue logo mais, que desencadeou uma pergunta um tanto quanto estranha - num primeiro momento - e que se apresentou como cerne deste discurso : E o que o reflexo no espelho de Narciso consegue ver sobre a figura dele? Um dos pontos que me incomodou neste mito, dentre tantos outros que inevitavelmente são excitados, é o fato deste herói não reconhecer a si mesmo e a sua história, diante do reflexo. Ele apresenta-se como um homem desubstancializado, incapaz de enxergar o familiar diante de sua própria figura. Essa é uma indagação superficial.. eu sei; mas não perde sua importância por isso.
Narciso não pode enxergar sua história diante do espelho, e eu lhes pergunto: hoje em quem consegue?
Não é preciso muito esforço para ver a enorme estante de itens nesta frenética liquidação de modelos identificatórios de A à Z! É só esticar os braços e comprar o que mais lhe agrada. Todo mundo correndo como baratas tontas atrás de "alguém" que possa suavizar a necessidade de encontrar uma história e devorá-la. Porque hoje em dia a história é um delicioso fast-food, e com ela seus atores: amigos, amores.. tudo é aparentemente devorado e usado, depois bau-bau. É uma avalanche tão grande de coisas que devemos ser, que acaba por esconder quem somos debaixo deste monte de entulho. Não é raro encontrarmos alguns conflitos ou atitudes que desaguam em um beco sem saída, onde aparentemente a impossibilidade de não nos reconhecermos em nosso próprio reflexo pode se concretizar. E acho que nem é preciso dizer que as consequências de tal acontecimento é desastrosa, tanto para os indivíduos quanto para a sociedade: é só abrir os olhos e ver ( se bem que aquela cegueira não ia nada mal). A dinâmica parece estar se invertendo: Somos o reflexo de um espelho que dita as regras! O que sobra... é o vazio!
Em pé diante do espelho, eu sabia muito bem quem estava ali,
Mas percebi que não estava sozinho.
Aquele cabelo e barba cumprida, o olhar mendigo e sem jeito,
uma voz rouca e desafinada num violão ainda por ser domado.
Nada disso era meu, alguém os tinha deixado ali.
Reconhecia-se inúmeros amores e amizades escondidos naquela foto,
Uns achados, outros perdidos. Alguns guardados a sete chaves enquanto
outros resistiam para que não fossem arrancados dali. Alguns ainda tão presentes
que sentia-se o calor de suas vidas dando forma ao contorno daquele corpo.
Era uma ilha deserta, onde a possibilidade de estar só não existia.
Mas percebi que não estava sozinho.
Aquele cabelo e barba cumprida, o olhar mendigo e sem jeito,
uma voz rouca e desafinada num violão ainda por ser domado.
Nada disso era meu, alguém os tinha deixado ali.
Reconhecia-se inúmeros amores e amizades escondidos naquela foto,
Uns achados, outros perdidos. Alguns guardados a sete chaves enquanto
outros resistiam para que não fossem arrancados dali. Alguns ainda tão presentes
que sentia-se o calor de suas vidas dando forma ao contorno daquele corpo.
Era uma ilha deserta, onde a possibilidade de estar só não existia.
Essa reflexão acima foi recentemente descoberta por mim - pelo intermédio de um amigo que me emprestara um livro, pra começar bem o ano do cavalo - como muito parecida com um acontecimento envolvendo Rembrandt, que buscou no espelho elucidar os mistérios do eu escondidos em cada fibra de seu rosto. Mas essas frases não são de quem encontra-se resguardado de tudo, ou de quem consegue enxergar seu límpido reflexo.. mas sim de alguém que mesmo intoxicado até a alma, foi agraciado com um puta susto diante do espelho de um bar.
Num mundo onde a fila pra vender a alma ao diabo anda contrariando as leis de Murphy: para buscar uma essência, tornar-se um espírito livre ou pelo menos sentir o cheiro de alguma coisa dessas; seria interessante tentar viver com os trocados que ainda nos restam no bolso, e se precisar... mendigar por ai.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
A orelha de Eurídice
Acredito que todos conheçam ao menos uma parte da passagem mitológica que serviu como inspiração para o nome deste blog: Orfeu e Eurídice. Estória que devido a toda sua musicalidade, dentre outros pontos, fizera com que Vinicius de Moraes adapta-se seus acontecimentos aos moldes tupiniquins em "Orfeu Negro".
Mesmo assim, este é um breve relato de algumas cenas deste mito:
"Orfeu era filho de Apolo com a musa Calíope. O herói recebeu de seu pai, como presente, uma lira e aprendeu a tocar com tanta magnitude e perfeição que nada podia resistir aos seus encantos; não somente os mortais como: os animais, as árvores e os rochedos. Os animais ficavam dóceis, as árvores se reuniam ao redor de Orfeu e as rochas perdiam parte de sua dureza. Orfeu casou-se com Eurídice. E alguns dias depois do casamento, sua esposa passeava com algumas ninfas, suas companheiras; quando foi avistada por um pastor que fascinado por sua beleza, tentou conquistá-la. Eurídice tentou fugir e foi picada por uma cobra, mordida no pé, morreu.
Orfeu passou dias procurando por sua esposa, e depois de fazer chorar quase todos os seres na atmosfera superior, resolveu descer ao tártaro para tentar acabar com seu sofrimento. Diante de Plutão e Proserpia, pediu junto de sua lira que pudesse voltar com sua amada morta para a superfície, pois segundo ele : " todos morrerão um dia, cumprindo assim seu destino no tártaro. Mas Eurídice ainda tem muito amor por encontrar" . Pedido atendido pelos deuses do mundo inferior, mas com uma condição: de que em hipótese alguma se voltaria para olhá-la, enquanto não estivessem chegado à atmosfera superior.
O casal andou por muito tempo através de passagens íngremes e escuras, sob um silêncio absoluto. E faltando pouco para chegar à superfície, Orfeu num momento de esquecimento, para certificar-se de que Eurídice o estava seguindo, olhou para trás, e Eurídice foi, então, arrebatada de volta ao mundo dos mortos."
Orfeu olhou. Não sei se por saudades e para certificar-se de que sua amada realmente estava lá; com medo ter sido alvo de uma chacota; ou por insegurança de saber se todo seu esforço estava sendo correspondido... mas ele olhou. Plutão também poderia ter sadicamente aberto essa exceção para matar dois coelhos com uma cajadada só: não negaria o pedido ao honroso herói, e ao mesmo tempo não deixaria que as leis de seu mundo fossem postas em dúvidas: pois com tanto amor assim, Orfeu quebraria o acordo...seria muito doloroso andar sem saber se sua amada o estava seguindo. Eu prefiro acreditar que além do que já foi dito, ele olhou pois este era a razão do todo seu trabalho. Não ligue, não venha, não olhe: nenhuma proibição mesmo que com todo repaldo racional, faria a menor diferença para o herói e sua dor nessa luta para reorganização de seu desejo. Isso não aconteceria pois seria ir contra sua natureza, sua vontade... seu amor. E as consequência foram trágicas pelo menos até o momento ( procurem ler toda estória, este não é o fim). As vezes para enfrentar o deserto - no caso o inferno - é preciso se lembrar do porque de se está ali, porque quer sair e porque enfim... saiu.
Inspirado neste mito, A orelha de Eurídice surge como um contra-ponto desta estória cheia de questionamentos e simbologias. A musica de Cazuza, diz : " trouxe uma orelha envolta em um pano vermelho, é a prova meu amor me espera sem uma orelha. Vou correndo, vou agora resgatar o meu amor".
É verdade que não é só a cicatriz ou a falta de uma orelha que identifica o ser amado. Existe a possibilidade e muitas vezes as necessidade, de olhar para as entrelinhas... ver além da embalagem. Procurar ver no escuro do mundo tudo o que a outra pessoa e a sociedade quer. Este espaço surge como uma tentativa de descolar-se da concreto que acaba por nos reificar, que asfalta nossos sentimentos e reflexões... espero chegar bem perto. E se for o caso, que de alguma forma o que seja escrito aqui nos excite a olhar para trás repetidas vezes....não por egoísmo, ou medo..mas para lembrar do motivo de nossos sofrimentos, do escuro, do silêncio.. e compartilha-lo.
Mesmo assim, este é um breve relato de algumas cenas deste mito:
"Orfeu era filho de Apolo com a musa Calíope. O herói recebeu de seu pai, como presente, uma lira e aprendeu a tocar com tanta magnitude e perfeição que nada podia resistir aos seus encantos; não somente os mortais como: os animais, as árvores e os rochedos. Os animais ficavam dóceis, as árvores se reuniam ao redor de Orfeu e as rochas perdiam parte de sua dureza. Orfeu casou-se com Eurídice. E alguns dias depois do casamento, sua esposa passeava com algumas ninfas, suas companheiras; quando foi avistada por um pastor que fascinado por sua beleza, tentou conquistá-la. Eurídice tentou fugir e foi picada por uma cobra, mordida no pé, morreu.
Orfeu passou dias procurando por sua esposa, e depois de fazer chorar quase todos os seres na atmosfera superior, resolveu descer ao tártaro para tentar acabar com seu sofrimento. Diante de Plutão e Proserpia, pediu junto de sua lira que pudesse voltar com sua amada morta para a superfície, pois segundo ele : " todos morrerão um dia, cumprindo assim seu destino no tártaro. Mas Eurídice ainda tem muito amor por encontrar" . Pedido atendido pelos deuses do mundo inferior, mas com uma condição: de que em hipótese alguma se voltaria para olhá-la, enquanto não estivessem chegado à atmosfera superior.
O casal andou por muito tempo através de passagens íngremes e escuras, sob um silêncio absoluto. E faltando pouco para chegar à superfície, Orfeu num momento de esquecimento, para certificar-se de que Eurídice o estava seguindo, olhou para trás, e Eurídice foi, então, arrebatada de volta ao mundo dos mortos."
Orfeu olhou. Não sei se por saudades e para certificar-se de que sua amada realmente estava lá; com medo ter sido alvo de uma chacota; ou por insegurança de saber se todo seu esforço estava sendo correspondido... mas ele olhou. Plutão também poderia ter sadicamente aberto essa exceção para matar dois coelhos com uma cajadada só: não negaria o pedido ao honroso herói, e ao mesmo tempo não deixaria que as leis de seu mundo fossem postas em dúvidas: pois com tanto amor assim, Orfeu quebraria o acordo...seria muito doloroso andar sem saber se sua amada o estava seguindo. Eu prefiro acreditar que além do que já foi dito, ele olhou pois este era a razão do todo seu trabalho. Não ligue, não venha, não olhe: nenhuma proibição mesmo que com todo repaldo racional, faria a menor diferença para o herói e sua dor nessa luta para reorganização de seu desejo. Isso não aconteceria pois seria ir contra sua natureza, sua vontade... seu amor. E as consequência foram trágicas pelo menos até o momento ( procurem ler toda estória, este não é o fim). As vezes para enfrentar o deserto - no caso o inferno - é preciso se lembrar do porque de se está ali, porque quer sair e porque enfim... saiu.
Inspirado neste mito, A orelha de Eurídice surge como um contra-ponto desta estória cheia de questionamentos e simbologias. A musica de Cazuza, diz : " trouxe uma orelha envolta em um pano vermelho, é a prova meu amor me espera sem uma orelha. Vou correndo, vou agora resgatar o meu amor".
É verdade que não é só a cicatriz ou a falta de uma orelha que identifica o ser amado. Existe a possibilidade e muitas vezes as necessidade, de olhar para as entrelinhas... ver além da embalagem. Procurar ver no escuro do mundo tudo o que a outra pessoa e a sociedade quer. Este espaço surge como uma tentativa de descolar-se da concreto que acaba por nos reificar, que asfalta nossos sentimentos e reflexões... espero chegar bem perto. E se for o caso, que de alguma forma o que seja escrito aqui nos excite a olhar para trás repetidas vezes....não por egoísmo, ou medo..mas para lembrar do motivo de nossos sofrimentos, do escuro, do silêncio.. e compartilha-lo.
Assinar:
Postagens (Atom)
